De Frente Tudo a granel O que já lá vai Info Anterior Anterior
A Outra Metade
Boris Vian
QUERO UMA VIDA EM FORMA DE ESPINHA

Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente





TUDO FOI DITO CEM VEZES

Tudo foi dito cem vezes
E muito melhor que por mim
Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte e cago-vos na tromba

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Embriagai-vos
Deve-se estar sempre embriagado.
Nada mais importa.
Para que o horrível fardo do Tempo
não vos pese sobre os ombros
e vos faça pender para a terra,
deveis embriagar-vos sem cessar.
Mas de quê?
De vinho,
de poesia
ou de virtude,
à vossa escolha.
Mas embriagai-vos.

E se um dia, nos degraus de um palácio,
na erva verde de uma valeta,
na solidão baça do vosso quarto, acordais,
já sóbrios,
perguntai ao vento,
à onda,
à estrela,
à ave,
ao relógio,
a tudo o que foge,
a tudo o que geme,
a tudo o que rola,
a tudo o que canta,
a tudo o que fala,
perguntai que horas são;
e o vento,
a onda,
a estrela,
a ave,
o relógio,
responder-vos-ão:
" São horas de vos embriagardes!
Para que não sejais os escravos martirizados do Tempo,
embriagai-vos sem cessar!
De vinho,
de poesia
ou de virtude,
à vossa escolha"

Baudelaire

O alentejano Janita reinterpreta

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Agradecemos
Já que os agradecimentos se devem dar em qualquer lugar e a qualquer outra, porque não dá-los também a qualquer um, a quem os quiser apanhar?
Como as rimas não passam aqui há muito tempo, também não vai ser hoje e pegando nas palavras de João Habitualmente (que parece ser pseudónimo de um professor da Universidade do Porto)...

"AGRADECEMOS" [sem lj-cut]

nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.

aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho,
aos que nos entusiasmaram encorajaram e
aos que ainda estão para vir

agradecemos,
a colaboração
ao haxixe de marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína
que casa c'o cowboy
lá para o fim do filme

agradecemos
ao fim do filme
por ter acabado
às sombras da tarde
por fazerem sombra à tarde
aos caminhos d'aldeia
por cheirarem a merda de vaca
ao senhor padre por ser virgem
nem ele sabe a importância que isso tem
nem nós também

agradecemos
ao white horse royal label
aos pudins flan
os maravilhosos momentos proporcionados

à nossa namorada
as incontáveis fodas
e as que demos sem contar

à mulher-a-dias
pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
pela afeição com que nos viu crescer
pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada

agradecemos
ao presidente da câmara
ter perdido as autárquicas
aos partidos no poder
e aos que ainda nos hão-de vir foder
às sogras tios e primos
a paciência de serem há tantos anos da família

agradecemos
ao sol da praia aos pardais ao ar lavado
e a todos os outros heróis mortos em combate e imortalizados
amortalhados em grandiosas estátuas
muros de betão

agradecemos
aos morcões e aos estúpidos
trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
a beleza com que são horriveis
é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim

agradecemos
à dor aos sofrimentos inúmeros com que bordamos os nosso dias
porque nosso será o reino dos ceús

aos ladrões e às putas
pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
por exibirem conceitos tão próprios de vida
e juramos
passar a cumprimentar toda a gente
estar infinitamente gratos
infinitamente gatos
piolhos porcos morcegos
infinitamente coisos despidos ao frio
vestidos ao sol
saias casacos camisas gabardines de vénus
roupa tanta sobre chãos
corpos galácticos

juramos estar infinitamente gratos
a todos os casais felizes
uniões duradouras bodas de prata
por demonstrarem o conceito da felicidade emparedada
o valor da paciência
o infinito do esforço

agradecemos
à arte à ciência à historia à sociologia
à política à religião
darem emprego a tanta gente

agradecemos
à tecnologia aos motores
pelo mesmo motivo
às fábricas aos computadores
idem
e a tudo quanto faça barulho cheire mal
foda a vegetação os rios os sóis a aragem
porque inevitavelmente somos a favor de uma poluição avançada,
não dessa como nos países de terceiro mundo que é feita
de gente magrinha
feia de ver.

Defendemos uma verdadeira poluição
pesada d'acordo com os padrões europeus

agradecemos
à tropa,
verdadeira escola d'homens
e à escola
tropa de meninos

agradecemos
a cristo marx reich
pela inutilidade prática das suas demonstrações
e agradecemos a todos quantos
fizerem demonstrações cheias de inutilidade prática
terem tido tanto êxito

não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
já lhes basta a infelicidade de serem
teóricos
de se esquecerem de comer
tudo a bem dos teoremas teóricos
explanações metafísicas
conceitos epistemológicos

não podemos claro deixar de
sentir ternura pelos nosso teóricos

agradecemos
às entidades divinas
a força que nos dão
a garra o querer e o tesão

e agora não agradecemos a mais ninguém
porque vamos comer um bom bife

talvez devêssemos agradecer
à defunta vaca

porque sempre em tudo o que façamos
sem dúvida contraímos
obrigação de comer um bom bife
e foder uma garrafa de verde

o que é um acto poético
de incomensurável estética.

de João Habitualmente.

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Poema Temperamental

Poema Temperamental

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?

Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.

Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.

Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.

Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?

Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.

Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.

Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.

Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Com certeza.

Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.

Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.

Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!

Ó caralho!

Joaquim Pessoa

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o discreto achaque da bombonerie
a rabujar enfastiado
com o vigor dum cigarro fumado
de colete e meia calçada
tá quieto não faças nada.
ele nada diz e pouco faz
passa o dia de frente para trás
passeando de peito ao léu
nunca se esquece do chapéu
palita os dentes com a língua
e arrota feito pelintra
esfrega a pança e coça o cabelo
mete nojo se se põe em pêlo
larga bombas de enxofre
tenha comido couves ou doce
ri com dentes de agarrado
c'a boca toda e meia de lado

podia ter feito uma entrada em branco
mas ficava a faltar sustância
assim ponho uma cena sem nexo
sem qualquer tipo de maningância
quem quiser que imagine
a figurinha acima descrita
tá em qualquer estacionamento
a segurar uma revista

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A rodar...: Pop Dell'Arte - Pi Latão

Fala, Hilda e Filó
Fala (abreviatura de "Murray Outlaw of Falahill") era o Scottish Terrier do Presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Roosevelt.
Fala tornou-se um soldado raso honorário do Exército Americano ao "contribuir" com $1 dolar diário para o esforço de guerra, criando assim um exemplo para a população. Graças a isso passou a receber tanta correspondência que passou a ter direito a uma secretária própria só para lhe tratar da correspondência. Embora tenha estudado nas melhores escolas onde aprendeu a sentar, rolar e deitar, esta ascenção do canídeo foi uma espécie de conto de fadas, dentro do género.
Morreu há 54 anos e não sei como há quem viva sem saber estas coisas, já que a vida é feita de pequenos nadas.

Por outro lado, nas minhas aventuras literárias descobri Hilda Hilst, escritora brasileira que, tal como Fala, já morreu.
Como Hilda Hilst e Fala não têm nada em comum, encontrei um poema da dona Hilst que possa fazer a ligação e isto não pareça assim conversa caída do nada. A protagonista tem um nome abreviado que começa por F e tem 4 letras, tal como Fala não faz grandes distinções sexuais e se o cão vivia um conto de fadas, a Filó é mesmo uma fada.


FILÓ, A FADINHA LÉSBICA

Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
e continua... )

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A CORTINA DE FERRO

Estive deitada
A Lua
varia
com o Sol
na razão inversa
do quadrado
da distância
e na razão directa
do cubo
do quadrado
do quarto
do quartzo
A fórmula
é engolida
de um trago
para o segredo
ser secreto
E eu vou
num voo
ter contigo
meu amor
longínquo
longitudes
e latitudes
estimadas
Marianna Alcoforado
sente-se 007
mas senta-se
- Adília Lopes -

Solta o carnaval poético que há em ti

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O MACACO NAS TERMAS

"Era uma vez um macaco que era uma espécie de pega porque roubava coisas e que era uma espécie de cuco porque punha as coisas roubadas na casa dos outros e que era uma espécie de Cupido porque forjava enredos amorosos. E era uma vez umas termas cheias de velhos muito velhos.
Assim o macaco roubou umas fraldas cheias de chichi a uma velha e foi escondê-las no quarto de uma velha sem uma perna e sem outras coisas. Espalhou-se o boato de que os velhos tinham um caso e de que tinham tido uma aventura.
O macaco fazia isto com toda a gente, sem deixar ninguém de fora, por muito estropiado e desajeitado que estivesse.
Assim o macaco encarregou-se da animação cultural das termas pois não há animação cultural sem animação amorosa.
E os velhos andavam radiantes, pois se não tinham o proveito tinham a fama."

in 'Obra' de Adília Lopes, 2000

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sem pontuação
<td>Q U E G I R O O M O U R I N H O P E R D E U N Ã O T E M P I A D A M A S A T É P O D E T E R P A R A M I M É I G U A L T A L C O M O O B E N F I C A O U O S P O R T I N G B R A G A O U P O R T O C A G U E I N I S S O H O J E C H A T E I A - M E N Ã O T E R A Q U I O B U K O W S K I N Ã O S E I P O R Q U E O D E I X E I N O E M P R E G O E L E O U O U T R O P O E T A Q U E M E A P E T E C E S S E L E R I N C R Í V E L O O L H A R D O P A U L A U S T E R P E N E T R A N T E C O M O D E V E S E R O D O S O B S E R V A D O R E S I N C I S I V O E A C U T I L A N T E M A S H E I D E - V O L T A R A I S S O U M D I A M A I S T A R D E T A L C O M O H E I - D E F A L A R D O C O N C E R T O D E A C U R C O M J A A P B L O N K A I N D A O A N D O A I N T E R I O R I Z A R A O C O N C E R T O E A O Q U E S E P O D E F A Z E R C O M A V O Z N Ã O S Ó A M U S I C A É M U S I C A M A S T A M B E M S Ó O S O M O P O D E S E R O G O V E R N O A N D A P A R A D O E A S N O T I C I A S A N D A M M O R T A S C O N T I N U A T U D O P A R A D O E N A D A A C O N T E C E N O P A Í S N A D A D E I M P O R T A N T E H Á U M C H E I R O A T R A J O U C E N O A R N O P A Í S U L T R A P A S S E I O S V I N T E C D C O M M U S I C A P O R T U G U E S A E M M P T R E S E F I Q U E I C O N T E N T E N I C K C A V E V E M C Á O U T R A V E Z G O S T A V A D E Í R A D O R M E C E R E M P A R E D E S D E C O U R A D E P O I S D E O O U V I R A C A N T A R A L G U N S T E M A S D A S R A R I D A D E S Q U E A G O R A D E I X A R A M D E O S E R R A R O S M E S M O S Ã O O S M O M E N T O S Q U E S E P A S S A M C O M Q U E M S E A M A N Ã O R A R O S D E E S C A S S O S M A S R A R O S C O M O O S E S P A N H O I S O D I Z E M A A A A H H H Q U E B O M O P R E E N C H I M E N T O Q U E S E S E N T E Q U A N D O E S T A M O S P R E E N C H I D O S E N C H E R O P E I T O E G R I T A R S E G U R O A M O T E A H C O I S A B O A A C A B O U A S E M A N A D A C E R VE J A M A S N Ã O C O N S I G O P A S S A R S E M E L A A S S I M L I N D A C H E I A D E F O R Ç A E C O M M U I T A E S P U M A A T E R M I N A R C O M O N I N G U E M D E V E T E R P A C I E N C I A P A R A L E R I S T O P O D E M S E M P R E P R O C U R A R P A L A V R A S N A V E R T I C A L O U D I A G O N A L E C O N F I R M E M S E O C O D I G O D A B I B L I A É M E R A C O I N C I D E N C I A O U M E N S A G E N S S U B L I M I N A R E S D I V I N A S O V E R A N D O U T B E E P P I P</td>

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ROMEO AND JULIET
If you will die for me,
I will die for you
and our graves will be like two lovers washing
their clothes together
in a laundromat
If you will bring the soap
I will bring the bleach.

- Richard Brautigan -

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Tô...: romantico

Bukowski e o 'Efeito Borboleta'
"o bater de asas de uma borboleta no japão pode provocar um tufão do outro lado do mundo".
Teoria do caos



Charles Bukowski


As consequências seriam imprevisíveis

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Tô...: observador ;-)
A rodar...: Underwear - Pulp

Bukowski

Charles Bukowski

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